No RS o PETG umedece rápido. Produção TEK 3D guarda spool fechado com sílica e seca antes de tiragem longa — senão aparece bolha e fiapo.
Umidade de filamento no sul do Brasil: o que muda na prática
Tutorial gravado no deserto americano ensina a deixar o rolo na prateleira. No Rio Grande do Sul isso é convite a bolha. O ar aqui carrega água: inverno úmido, litoral, serra com neblina, pátio de fundo de casa em Canoas ou Porto Alegre no fim de tarde. PETG, o único material do catálogo TEK 3D, é higroscópico o bastante para estragar uma tiragem de vaso em uma noite aberta.
Esta nota é sobre o hábito da produção, não sobre vender caixa milagrosa. Sílica, saco bem fechado, e o que fazemos entre um job e o próximo. O vaso nervurado é o SKU que mais denuncia spool molhado: a ripa mostra microporo, a parede perde brilho fosco uniforme, e a primeira curva estala no bico.
O ar do pampa não é o ar do vídeo do Arizona
Umidade relativa no RS passa fácil de 70% em vários meses. Em janeiro chove e esquenta; em julho o frio vem com chuva e o cômodo da impressora vira umidificador. PETG aberto nesse ar ganha água em horas, não em semanas. Quem espera “o carretel durar o mês na estante” está usando calendário de clima seco.
Sintomas que atribuímos à água, nesta oficina, antes de culpar o fatiador: estalo ritmado no hotend, superfície com cratera de alfinete, fiapo mesmo com recuo curto, camada que não funde direito (a água rouba calor), e perda de resistência — o vaso racha no nervo se você torcer, coisa que o mesmo modelo seco não faz. PLA, que não vendemos, mascara isso por mais tempo. PETG não mascara.
Higrômetro barato vale mais que achismo
Temos um medidor de umidade de gaveta, daqueles de supermercado, dentro da caixa dos spools. Não é certificado. Serve para ver tendência: se o número sobe, a sílica morreu ou o zíper falhou. Trocar gel no olho, sem número, é como imprimir sem olhar a primeira volta.
Sílica, saco e o vício de fechar na hora
O hábito que mais economiza retrabalho: o carretel só fica fora do saco enquanto a máquina come. Acabou o job, ou pausou para troca de cor, o rolo volta para o zip com as bolsinhas de sílica. “Deixa aí que já volto” é a frase que precede o estalo. Já voltar demora. O ar do sul não espera.
Sílica laranja (indicadora) ou as bolsas grandes de mídia reutilizável: as duas entram. Quando a laranja vira verde escuro, vai para a estufa baixa até voltar a cor, não para o lixo no primeiro ciclo. Gel saturado dentro do saco é pior que saco vazio: dá falsa segurança. Rotulamos a data da última regeneração no próprio zip, com fita crepe. Parece coisa de depósito. É depósito. Somos loja, não laboratório, mas o plástico não distingue.
- Zip grosso, não o saquinho fino do supermercado que fura no canto.
- Sílica suficiente: um saquinho de 5 g não dá conta de um rolo de 1 kg no RS.
- Rolo pela metade é mais perigoso: mais ar dentro do saco, mais água disponível.
O que a produção faz entre uma tiragem e a outra
Na TEK 3D o fluxo é prosaico. Spool novo chega, vai para o saco com sílica mesmo que a embalagem de fábrica pareça intacta — lacre de fábrica já veio comprometido mais de uma vez no calor do transporte. Antes de tiragem longa (vaso nervurado leva tempo de máquina que não queremos repetir), o rolo passa pela caixa seca se o higrômetro da gaveta estiver alto ou se o lote ficou parado.
Não secamos todo carretel todo dia. Isso seria teatro. Secamos quando o histórico pede: lote aberto, clima ruim, ou a peça-piloto saiu com poro. A peça-piloto do vaso é uma parede curta, uns vinte minutos. Se estala, o job cheio não começa. Essa disciplina custa filamento de teste e poupa um vaso inteiro.
Cores escuras escondem microporo na foto; o verde-oliva do vaso nervurado, não tanto. Por isso essa SKU virou nosso canário. Se o oliva sai sem cratera, o preto do mesmo lote provavelmente também passa. Inverso não é verdade: preto pode “passar na foto” e ainda estar molhado.
Caixa seca versus “forno da cozinha”
Já vimos cliente tentar regenerar sílica e secar polímero no forno de pizza. Termostato doméstico mente, o carretel ovala, e o filamento fica com tensão interna que depois quebra no drive. A loja usa caixa com controle, temperatura na faixa segura do PETG. Não alugamos estufa industrial. Não precisamos. Precisamos de consistência, não de catálogo de laboratório.
Inverno, litoral e serra: três microclimas, o mesmo polímero
Quem imprime no litoral norte gaúcho briga com sal e umidade juntos. Sal no PEI é outro texto; no filamento, a umidade basta para estragar. Na serra, neblina de manhã e sol de tarde: o saco “suda” se você tira o rolo gelado e abre no cômodo quente. Condensação no filamento é água líquida. Esperamos o carretel equalizar temperatura dentro do saco fechado antes de abrir. Parece frescura. Evita a primeira hora de estalo.
Em apartamento com ar-condicionado o ar pode até secar, mas o desumidificador não é desculpa para deixar cinco rolos na prateleira. AC liga e desliga. A sílica não tira férias. A regra da casa é a mesma da loja: aberto só na máquina.
O que a umidade faz no vaso (e o que o cliente percebe)
Microporo na ripa, cordão irregular, cheiro mais forte na hora de imprimir, e uma fragilidade no nervo que só aparece se a peça cair. O cliente não vê o estalo. Vê a parede feia ou a rachadura. Por isso tratamos água no polímero como defeito de produção, não como “característica do FDM”. FDM tem linha de camada; não tem obrigação de ter cratera de vapor.
O vaso nervurado que enviamos passou por essa peneira. Não é garantia eterna contra o clima da casa do cliente — a peça pronta não “embebe” como o spool —, mas a matéria-prima, sim, foi tratada como coisa que o sul do Brasil ataca.
- Estalo no bico: interrompe, seca, não “completa o vaso assim mesmo”.
- Cratera na ripa: retrabalho, não desconto mudo.
- Spool aberto no pátio: nem entra na máquina do catálogo.
O que não vendemos como milagre
Não temos selo de laboratório. Não medimos ppm de água com analisador. Temos saco, sílica, higrômetro de gaveta, caixa seca e o recuo de começar um vaso se o piloto estalar. Isso basta para o que esta loja entrega. Quem promete “filamento eterno sem cuidado no RS” está vendendo clima de outro país.
Se você imprime em casa no sul: compre sílica a granel, zip grosso, e trate o carretel como farinha no verão — fecha, não deixa na pia. Se você só quer o vaso sem montar depósito, ele está no site, impresso aqui, com o rolo que não dormiu no relento gaúcho.
O recado que fica na parede da produção não é poesia: o ar desta região ganha do lacre frouxo. Quem fecha o saco na hora imprime parede lisa; quem deixa o PETG “respirar” no pátio colhe poro na ripa. O vaso só sai da mesa quando o piloto calou o estalo.