Se o PETG fiapou, seque o spool (65 °C, algumas horas) antes de aumentar retracção. Retracção agressiva no direct drive só tritura o filamento.

Stringing em PETG: seque o filamento antes de mexer na retracção

Fiapo entre torres, no jargão da nossa oficina, quase nunca começa no menu de retração. Começa no spool que passou a semana aberto no RS. PETG bebe água do ar. Água no polímero vira vapor no bico, o vapor empurra um fio fino na viagem, e o fatiador leva a culpa. Na TEK 3D a ordem é rígida: secar o rolo primeiro, na casa dos 65 °C, algumas horas, e só então mexer em milímetro de recuo.

O catálogo desta loja é PETG. PLA, que não vendemos, fiapa menos e perdoa spool úmido por mais tempo. Quem copia um perfil de retração longa pensado para tubo Bowden e PLA molhado tritura o PETG no extrusor de direct drive. O caso que mais ensina isso na bancada é o dragão articulado: dezenas de elos, viagens curtas, asas finas. Se o filamento está molhado, o bicho nasce com cabelo.

O fio de cabelo não nasce no fatiador

Stringing é polímero que sai do bico quando não deveria. Duas famílias: o fio elástico contínuo (típico de PETG quente e úmido) e a gotícula que pinga na viagem (ooze). A primeira família some quando o spool está seco e a temperatura do bico cai uns graus. A segunda pede wipe, coasting leve, ou um recuo curto. Misturar as duas no mesmo “aumenta retração para 6 mm” é o atalho que quebra o filamento no extrusor.

Como reconhecemos umidade na prática: estalo no bico, superfície fosca com microbolha, fiapo que parece teia e não um fio único, e cheiro um pouco mais ácido do que o lote seco. Retração alta não fecha bolha. Retração alta só puxa polímero poroso para dentro do heat break e piora o próximo trecho.

O teste barato antes de abrir o slicer

Imprimimos duas torres separadas por uns 30 mm, sem retração, com o spool como está. Se a teia aparece mesmo assim, o problema não é recuo: é água, temperatura ou ambos. Secamos o rolo e repetimos. Só quando as torres saem limpas sem retração é que introduzimos 0,4 mm e subimos se preciso. Esse ritual evita a tarde inteira mexendo em “extra restart distance”.

Estufa a uns 65 °C — o primeiro movimento, não o último

PETG nesta oficina seca na casa dos 65 °C. Não é o 45 °C de quem tem medo de deformar o carretel, nem os 80 °C que deixam o spool oval. Horas: de quatro a seis para um rolo que ficou aberto no pátio úmido; a noite inteira se o saco estava sem sílica. Não inventamos higrômetro de laboratório. Pesamos o spool antes e depois quando a dúvida é grande: se perdeu gramas, era água.

Forno de cozinha doméstico é péssima ideia: termostato oscila, o carretel de plástico deforma, e ninguém quer PETG com cheiro de lasanha. Usamos caixa seca com controle, ou o próprio hotend em modo “dry” só em emergência de poucos metros — e mesmo assim o volume seco é ridículo. Produção de dragão articulado não se faz com três metros secos e o resto molhado.

  • Temperatura alvo: cerca de 65 °C no polímero, não no display mentiroso da caixa.
  • Tempo: horas, não “vinte minutos enquanto o café passa”.
  • Depois de seco: saco fechado com sílica, ou impressão imediata.

Direct drive: recuo curto, 0,4 a 1,2 mm

As máquinas da loja são direct drive. O caminho do polímero até o bico é curto. Retração longa, da escola Bowden (4–8 mm), aqui só raspa o filamento nas engrenagens, alarga o trecho, e na próxima empurrada o extrusor patina. O intervalo que usamos no PETG articulado é 0,4 mm a 1,2 mm, velocidade de recuo moderada (não 80 mm/s “para o fio estourar”). Acima de 1,2 mm, nesta bancada, o ganho de limpeza é mínimo e o risco de trituração sobe.

Temperatura do bico: preferimos baixar 5 °C a aumentar recuo. PETG fiapa mais quente. Um perfil que imprime vaso sólido a 250 °C pode ser agressivo demais para o dragão, cheio de retrações. Caímos para a faixa em que a camada ainda funde (geralmente uns 235–245 °C neste lote, calibrado por torre) e o fio some. Mentir a temperatura no display e compensar no recuo é o hábito que mais quebramos em operador novo.

O que o recuo curto não resolve

Viagem longa sobre a asa do dragão ainda deixa um fio se o bico estiver umedecido. Aí entra wipe na torre de limpeza, ou um pequeno coasting (fração de milímetro) para esvaziar a pressão. Não empilhamos dez recursos ao mesmo tempo. Um de cada vez, peça de teste pequena, depois a tiragem.

O dragão articulado como laboratório de fiapo

O dragão articulado tem elos que nascem quase juntos, depois se separam na mão. Qualquer teia entre segmentos vira solda: o elo não articula, ou articula e racha. Por isso essa SKU é o pior juiz de stringing que temos. Vaso maciço esconde fiapo por dentro. Dragão não esconde.

Na tiragem: spool seco, recuo na faixa curta, ventilador de peça moderado (PETG não quer vento demais na parede, mas o articulado precisa de um pouco para não fundir elo com elo), e pente (combing) restrito para não atravessar o vazio. Se o modelo pede suporte, o suporte também fiapa — e limpar teia de suporte em cento e tantos elos é o trabalho que ninguém quer cotar em reais por hora.

Personalização de nome gravado no dragão, quando o cliente pede, entra na mesma disciplina: o texto é baixo, o bico viaja, e filamento molhado escreve cabelo em cima da letra. Secar o rolo não é capricho de laboratório. É o que impede a gente de refazer a peça inteira por causa de três fiapos na asa.

Quando a retração alta tritura o PETG

Sinal clássico: o extrusor faz tique-tique, a peça fica com trecho faltando, e o filamento sai do drive com marca de dente profunda. Direct drive + recuo longo + PETG um pouco mole (quente ou úmido) = trituração. A “solução” de apertar o parafuso do drive só acelera o rasgo. Soltamos a tensão, encurtamos o recuo, secamos o spool, baixamos a temperatura. Nessa ordem.

Outro sinal: o trecho retraiu tanto que o bico engole ar e a próxima linha começa oca. Extra restart / extra length on restart vira muleta. Muleta empilha. Prefiro um recuo de 0,8 mm que funciona a um recuo de 2,5 mm com três compensações.

  • Tique no extrusor: pare a tiragem, não “vai que termina”.
  • Marca de dente no filamento: recuo longo demais ou tensão alta.
  • Início de linha oco: recuo + temperatura, não só “extra restart”.

O que o cliente vê (e o que a loja assume)

Peça articulada vendida nesta loja sai com os elos livres, sem teia grossa soldando segmento. Fiapo residual mínimo, do tipo que a unha tira em dois segundos, pode existir em geometria densa — PETG não é polímero de resina. Não prometemos superfície de SLA. Prometemos que o dragão dobra, posa e não nasce com cabelo grudando asa no dorso.

Se você imprime em casa e está preso no menu de retração: tire o spool do ar gaúcho, aqueça uns 65 °C por algumas horas, volte com recuo de menos de um milímetro e meio. Se ainda assim a teia persistir, aí sim mexa em temperatura e wipe. Se você quer o articulado sem essa briga, ele está no catálogo, em PETG, impresso na mesa que já passou por essa lista.

O ritual da oficina, no dia em que o dragão fiapa, cabe numa frase curta que não serve de slogan: secar, recuar pouco, esquentar menos. Três verbos. O quarto — “aumentar retração até o filamento virar palha” — ficou proibido na nossa parede de recados, exatamente porque já pagamos essa conta em plástico triturado e em asa refeita.

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