No PETG, primeira camada boa é mesa limpa, PEI texturizado e Z um pouco mais alto que no PLA — não cola permanente nem levanta canto.

Primeira camada de PETG que gruda (e solta da mesa)

Na TEK 3D a primeira volta do bico decide se a peça sobe ou se vira lasca no canto da mesa. Não vendemos PLA no catálogo: o que sai da nossa bancada é PETG, e PETG não se comporta como o tutorial que ensina a “esmagar” o filamento até virar vidro. Quem chega aqui perguntando por que o canto levantou no vaso costuma ter copiado um offset pensado para outro polímero.

Esta nota é da loja que imprime no Rio Grande do Sul, com inverno úmido, verão abafado e mesa que fica no mesmo cômodo em que a gente empacota pedido. Não é aula de fatiador. É o que vemos quando a base do vaso nervurado cola demais, cola de menos, ou sai com a marca do PEI tão fundo que parece acidente.

PETG não pede o mesmo esmagamento da primeira volta

PLA, que esta loja não coloca à venda, perdoa um Z baixo: o cordão achata, vira elipse e ancora. PETG, se você copia esse hábito, vira cola permanente. A fita de polímero quente entra nos vales da textura, espera esfriar e, na hora de soltar da mesa, leva um pedaço da peça ou arranca o próprio revestimento. Na nossa mesa isso já aconteceu com saia larga e com disco de calibração. O som é feio. O conserto, pior.

O que buscamos é um cordão ovalado, não uma panqueca. Largura de linha um pouco acima do bico, altura de camada honesta (0,20 mm na maior parte do catálogo) e contato suficiente para não deslizar quando o ventilador da peça ainda está baixo. Se a primeira volta parece transparente demais, o bico está baixo. Se parece um macarrão redondo que o bico empurra, está alto. O intervalo útil, na prática desta bancada, fica entre dois e cinco centésimos de milímetro acima do que usaríamos se o material fosse o PLA que não vendemos.

Sinais na borda, não no centro do quadrado

O teste clássico de nove quadrados mente no meio e fala a verdade na borda. PETG costuma grudar bem no centro e falhar no perímetro, exatamente onde o vaso nervurado começa a curva. Olhamos o canto: se o filamento desenha um V, o Z está alto; se a borda fica serrilhada e brilhante, está baixo. Ajustamos no baby step, não no “fluxo 120%” que alguns vídeos vendem como milagre.

PEI texturizado, não o prato liso que brilha no Reels

Vidro borossilicato com cola em bastão aparece em foto bonita. Na produção da loja, o prato liso com PETG é loteria: ou a peça solda e você reza na espátula, ou ela solta no canto na camada 8. PEI texturizado (o tipo fosco, com dente fino) segura o polímero nos vales sem transformar a base numa solda. A peça sai com a marca da textura — e isso, no vaso, até ajuda o visual: a base não parece injeção barata.

Não passamos fita azul por cima do PEI. Não espalhamos slurry de cola branca. Álcool isopropílico 90% ou mais, pano que não solta fiapo, e a placa fria o bastante para não evaporar o álcool no segundo. Se a placa ainda está quente de um job anterior, o isopropanol some e a gordura do dedo fica. Esperamos. Parece preguiça. É o contrário.

  • Textura média: vale para vaso, escultura baixa e peça com saia.
  • Textura agressiva demais: a base fica com dente fundo e o cliente acha defeito.
  • Prato liso: só em teste interno, nunca no que vai para o site.

Dois a cinco centésimos no Z — o intervalo que usamos de verdade

Quando alguém manda print de tela com Z-offset −0,20 mm “porque o PLA precisava”, a gente recua. No PETG da nossa bancada o ponto de partida, com bico 0,4 mm e PEI fosco, é um offset um pouco mais alto: da ordem de +0,02 mm a +0,05 mm em relação ao perfil que faríamos no polímero que não está no catálogo. Não é número mágico universal. É o intervalo em que o vaso nervurado solta inteiro depois do resfriamento, sem deixar ilha de polímero colada.

Calibrar com papel sulfite à temperatura de trabalho, não a frio. A placa cresce. O PEI cresce menos que o alumínio. Se você zera frio e imprime quente, o bico mexe no revestimento. Na TEK 3D zeramos com a mesa já no setpoint do PETG (na casa dos 75–85 °C nesta oficina, conforme o lote). O papel deve arrastar com um atrito leve, não rasgar, não deslizar como se não houvesse placa.

Baby step durante a saia, não depois da peça pronta

A saia de três voltas existe para isso. Se a primeira volta da saia está esburacada, subimos 0,02 mm na hora. Se está brilhante e larga demais, descemos o mesmo tanto. Esperar a peça inteira para “ver no final” é jogar filamento fora. O vaso nervurado gasta material na parede ondulada; a base precisa estar certa nos primeiros cinco minutos.

Mesa suja: oleosidade, cola velha e o que o inverno esconde

O inimigo número um da primeira camada nesta loja não é o fatiador. É o dedo. Quem ajeita o PEI “só um pouquinho” deixa sebo. PETG detesta isso: o cordão desvia, forma ilha, e duas horas depois o canto levanta. Luvas de nitrilo baratas na hora de encaixar a placa pagam o preço do retrabalho.

Cola em bastão residual de teste antigo vira casca. PETG imprime em cima, parece firme, e na hora de desgrudar a casca vem junto — ou pior, a casca fica no PEI e a próxima peça herda o relevo. Lixamos? Não. Lavamos a placa (água morna, detergente neutro, secagem completa) quando o álcool não basta. Secagem completa importa: água no vale da textura vira bolha na primeira volta.

  • Isopropanol no pano, não borrifado em poça sobre a mesa quente.
  • Detergente só quando há filme visível ou histórico de cola.
  • Nunca azeite, WD-40 ou “spray de desmoldante” de funilaria.

Inverno gaúcho versus verão: a mesma mesa, dois bichos

Em julho, de manhã, o cômodo da impressora no RS amanhece frio. A placa sobe de temperatura, o ar em volta não. A primeira volta esfria rápido demais na borda e o canto levanta mesmo com Z certo. Nessa época fechamos porta, usamos enclosure simples (não é câmara industrial) e atrasamos o ventilador da peça. O PETG agradece. O operador também: menos elefante, menos retrabalho.

Em janeiro o problema inverte. O cômodo esquenta, a placa já estava quente do job anterior, e o PETG fica “melado” na textura. A peça solda. Soltar a peça vira luta. Aí baixamos uns graus na mesa, esperamos o PEI esfriar de verdade antes de puxar, e não fazemos a besteira de jogar água fria na placa para “acelerar”. Choque térmico racha revestimento. Revestimento rachado é placa nova, e placa nova não cabe no preço do vaso.

Umidade do ar entra nesta conta de um jeito indireto: filamento molhado falha mais na primeira volta (bolha, estalo, cordão irregular) do que um Z errado em 0,01 mm. Se a primeira camada está cheia de crateras, olhamos o spool antes de mexer no offset. A nota sobre secar o rolo é outro texto; aqui o recado é simples: crateras não se resolvem apertando o bico contra o PEI.

O vaso nervurado como prova de base

Escolhemos o vaso nervurado como exemplo porque a geometria não perdoa. A base é larga, a parede sobe em ripas, e qualquer canto solto aparece na foto de produto — e a foto de produto nesta loja é da peça real, não de render. Se a primeira camada falha, a ripa correspondente nasce torta. Se a primeira camada solda demais, a base fica com dente de PEI que o cliente lê como falha de molde.

Na prática da tiragem: saia, conferência visual, baby step se precisar, e só então deixamos a máquina sozinha. Não confiamos em “perfil baixado da internet” com primeiro layer a 0,10 mm e mesa a 90 °C. PETG nesta oficina trabalha com primeira camada um pouco mais alta que as seguintes, velocidade baixa (na casa de 20–30 mm/s na volta inicial) e fluxo de primeira camada só um pouco acima do nominal — o bastante para fechar o cordão, não o bastante para virar solda.

Quando um canto ainda levanta depois disso, a causa costuma ser corrente de ar (janela, ventilador de teto) ou placa que não aquece homogênea nas bordas. Medimos com termômetro de infravermelho barato. Se a borda está 8 °C abaixo do centro, não adianta baixar Z. Adianta esperar mais no soak da mesa, ou recusar aquele canto da placa para peça larga.

O que não fazemos para “grudar de qualquer jeito”

Não usamos raft no catálogo: o raft no PETG é um segundo problema na hora de soltar e uma base feia. Não usamos brim largo no vaso nervurado; a geometria já tem área de contato. Brim entra em peça alta e magra, não neste SKU. Não passamos fita kapton em xadrez. Não prometemos que “qualquer impressora de R$ 1.200 sai igual”: o que vendemos é a peça pronta, impressa aqui, com a mesa que conhecemos.

Se você imprime em casa e só quer entender por que a peça da loja solta inteira: PEI fosco, mesa limpa, Z um pouco mais alto que o hábito de PLA, e respeito ao clima do dia. Se você quer o vaso sem brigar com offset, ele está no catálogo, em PETG, com a base que descrevemos.

Na próxima vez que o canto do polímero levantar aqui, a primeira pergunta na bancada não é “qual retração o YouTube mandou”. É: a placa estava limpa, o PEI era o texturizado, o Z estava aqueles centésimos acima, e o cômodo estava em que estação. Quatro respostas. Quase sempre uma delas é a falha. O vaso só vai para a foto quando as quatro passam.

WhatsApp